De volta à fazenda? / by clarissa morgenroth

Todos nós sabemos que prédios e conurbações urbanas contribuem com grandes números na emissão de carbono e poluição dos nossos ambientes naturais. Sistemas de aquecimento e resfriamento artificiais consomem muita energia, grandes densidades de piso impermeável criam ilhas de calor, além de sobrecarregar os sistemas de drenagem, causando inundações. A própria indústria de construção é uma das maiores fontes de poluição global.

Tendo em vista os problemas ambientais e os prejuízos econômicos recorrentes às cidades modernas, vários governos locais ao redor do mundo criaram mecanismos de incentivo para medidas que amenizem tais tendências, tentando inverter o papel de edifícios e cidades, para que se tornem a solução do mundo contemporâneo, e não o seu maior problema. Em Nova York, a companhia Coned, que fornece eletricidade para toda a cidade, incentiva a instalaçã de tetos-verdes e já transformou três de seus prédios em verdadeiras chácaras urbanas. É sabido que esses jardins suspensos podem contribuir com ate 70% da absorção das águas pluviais, evitando a sobrecarga do sistema de drenagem e grandes prejuízos materiais que podem ocorrer com as enchentes.

O uso de telhados-verdes é tambem uma maneira de driblar a falta de terrenos livres em centros urbanos congestionados e oferecem a oportunidade para o cultivo de hortas. A agricultura urbana, por sua vez, ajuda na economia de combustíveis e energia, oferecendo alimento fresco e saudável sem o uso de transporte e pesticidas. Em Londres, onde 80% das frutas e vegetais são importados, o governo está incentivando o cultivo de hortas, na esperança de cortar custos com transporte, embalagem e importação. Seguem o exemplo de Havana, onde há anos em que até 100% dos vegetais consumidos nas cidades são produzidos em jardins urbanos.

Com o colapso da União Soviética, no final da década de 80, Cuba se viu desprovida de óleo e sem recursos para seguir com um sistema de agricultura dependente de maquinário. Sem ter como alimentar a população urbana, o governo rapidamente incentivou a produção de alimentos no âmbito urbano, com a instalação de jardins e hortas comunitárias, feiras livres e a regulamentação dos plantios para garantir bio-diversidade. O resultado é que a populacao de Havana produz os legumes e frutas que consome, com índices que variam de 50 a 100% do total consumido nas cidades por ano. Outras cidades como Barcelona, Hanoi, Lubumbashi, Milwaukee, Shanghai, Rosario e Chicago também têm programas de incentivo aos tetos verdes e a proliferação da "agroecologia", cujo objetivo é acabar com o uso de pesticidas.

Pesticidas são os únicos componentes químicos tóxicos que nós deliberadamente introduzimos diretamente no meio ambiente e a cada ano que passa se tornam mais e mais fortes. Como se não bastasse, uma média de 95% desses produtos acabam em lugares como em lagos e rios, o ar que respiramos e em outras espécies aos quais não foram destinados. Isso representa um grande dano aos ecossitemas ao redor do mundo e apesar do aumento do uso de produtos orgânicos, as estatísticas mostram que o uso de pesticidas tóxicos continua crescendo.

Aqui em SP temos também bons exemplos de grupos que começam a se preocupar com o assunto. A ONG Cidade sem Fome, organizada por Hans Temp, atua na periferia de São Paulo desde 2004. A Praça das Corujas, na Vila Beatriz, e a Praça dos Ciclistas, na Consolação, saã dois exemplos de praças públicas em SP onde temos hortas comunitárias.